
Por Augusto M. Paim
— Quero que vocês desenhem o cheiro da coisa que mais gostam.
Havia dito a professora.
Agora ela recolhia as folhas com desenhos de chocolate e outras guloseimas.
Entre as folhas, o desenho de uma mulher. As crianças riram, a menina tinha errado.
— Que cheiro é esse que você desenhou?
Perguntou a professora.
— Cheiro de mãe.
Quem amarrou o meu canto que tantos gostavam tanto?
— A educação formal não dá bola para a música e a poesia.
Diz Edu Pacheco, mestre em educação e músico.
O “caso do cheiro de mãe” foi uma exceção, aconteceu antes mesmo de a professora participar da oficina do Pandorga da Lua. Ela deu-se conta que havia algo por trás: o conselho tutelar só permitia que a menina visse a família nos finais de semana.
— O inusitado é que através de uma imagem, que podemos chamar de poética, a criança se expressou. Este é um dos focos do trabalho de poesia. A possibilidade de expressão, oportunidade de se colocar no mundo. Mas, no lugar de usar um caminho usual, a poesia cria outros espaços, outras formas de interferência na vida.
Explica Edu.
Algumas vezes, os professores começam as oficinas demonstrando tédio e incomodados por terem que se envolver com atividades que provoquem reações diferentes das habituais, que modifiquem o cotidiano escolar.
Começam.
Uma vez, uma professora já chegou dando as cartas:
— Eu não gosto desse negócio de poesia. Minha filha passa o dia inteiro em casa discutindo arte com os amigos. Em vez de sair pra rua...
Ricardo Freire, Edu Pacheco e Ângela Gomes incentivaram a professora a cantar, tocar instrumentos musicais (mesmo ela não sabendo), analisar canções, compor, criar poemas, fazer exercícios lúdicos. Ela conheceu uma porção de ritmos presentes no caldeirão musical do Rio Grande do Sul. Colou e recortou figuras para o seu travesseiro do sonho e o do pesadelo. No fim da oficina, era outra pessoa.
— Agora eu entendo porque minha filha gosta tanto de discutir arte com os amigos.
Disse.
Por que moro na cadeia,casa apertada e feia?
Nas oficinas do Pandorga, os professores viram alunos e se colocam no lugar das crianças. Entendem o que é estar/ser inibido, o que é se expor na frente dos colegas. Depois levam tudo isso para sala de aula.
— Eles experimentam, vivenciam, refletem a criação. Dão-se conta que podem criar.
Diz Ângela, professora de educação especial, psicopedagoga e cantora. Refere-se às crianças, mas vale também para os professores.
O grupo musical Pandorga da Lua começou em 2001. O músico Ricardo Freire pegou poemas do seu amigo, psiquiatra e poeta Jaime Vaz Brasil e passou dois anos musicando-os. Fez pesquisas junto ao Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore em Porto Alegre, RS, entrevistou músicos e estudiosos da área a fim de descobrir mais detalhes sobre a origem e a execução dos ritmos que convivem na cultura musical do Rio Grande do Sul, perguntou e perguntou, de modo que em 2003 o Pandorga não só estava maduro como ficando bastante conhecido. Nas gravações, juntaram-se Lucinha Lins, Geraldo Flach, Yamandú Costa, Renato Borghetti, Luiz Carlos Borges, Mano Lima... e tantos outros. Neste período, as poesias já existiam também em forma de imagem, ilustradas pela artista plástica Paula Mastroberti.
O show de estréia foi no Teatro Treze de Maio, em Santa Maria, RS, em 2004.
Ricardo estava nervoso. Dois dias antes, confessou isso a Geraldo Flach. Geraldo não faria parte do show.
— Sejas tu.
Disse Geraldo.
E Ricardo Freire foi Ricardo Freire.
O show foi um sucesso. E uma novidade: Ricardo nunca antes tocara para crianças.
Na segunda música, “O Rabo da Cobra”, quando soaram os tambores que executavam um dos ritmos afro-gaúchos, o maçambique, uma criança chorou. Ricardo fez sinal para o percussionista, começaram a tocar mais baixo, para não assustar. Ricardo e cia. deram continuidade ao show assim, com empatia, sentindo o clima da platéia, propondo brincadeiras, danças, incentivando a criançada a se expressar.
De certa forma, as oficinas do Pandorga começavam ali.
Preso dentro da gaiola,o alpiste é só esmola.
Em 2005, o Pandorga foi para as escolas. Além das apresentações, o grande objetivo de Ricardo era experimentar a ligação que o projeto poderia ter com a educação. Nessa altura, Edu Pacheco havia se juntado ao grupo. Ele já tinha uma boa quilometragem no uso da música como instrumento pedagógico.
— Não a música para ensinar outras matérias. É a música pela música.
Diz Edu.
Pode até ser que a arte acabe levando para esse lado, para a ilustração ou aprendizado de alguma matéria. Mas a intenção é outra. É abrir um novo caminho de consciência para professores e crianças acostumadas com as rotinas do ensino convencional. É estimular a percepção, a subjetividade, a cognição, a sensibilidade. É criar um mundo interno. E externo. É apresentar o inédito para as crianças, despertar seu interesse pela busca da novidade. É apreciar, criar, fazer arte.
É aprender que, num modelo lúdico de ensino, tudo é jogo, e errar não existe.
— Na educação convencional, errar é feio. Você é avaliado por “certo ou errado”.
Diz Edu.
Mas por que errar?
Ou melhor: por que não errar?
O que pode nesse mundoser maior e mais bonitodo que abrir asas, voandono azul do infinito?
Ainda em 2005, em paralelo com as experiências das oficinas, o espetáculo musical do Pandorga foi incrementado com a presença de artistas protagonizando a Camila e o Anacleto, personagens das canções de Jaime Vaz Brasil e elos de ligação e comunicação com a platéia. Um ano depois, ficou pronto o livro/cd do Pandorga da Lua. O lançamento foi no Teatro Treze de Maio.
A partir de 2007, embalado pela conquista do Prêmio Açorianos de Música Infantil, o Pandorga passou a dar vôos cada vez maiores. A convite do governo brasileiro, fez apresentações no vizinho Uruguai. O que não impediu a continuidade dos sobrevôos regionais: beneficiados pela Lei de Incentivo à Cultura municipal, Ricardo e cia. saíram com uma Kombi por distritos próximos a Santa Maria. Interagiram com crianças em ginásios, quadras de esporte, pátios de escolas (tendo duas árvores como palco), auditórios, feiras, festivais... Várias vezes foram recebidos com corais de crianças cantando os versos de Jaime Vaz Brasil. Várias foram as homenagens e retornos apaixonados pelo seu trabalho.
Por isso e por tantos outros motivos, as oficinas do Pandorga são oficinas também para Ricardo, Ângela e Edu. Eles estão sempre aprendendo e se emocionando com o que fazem. Quem sabe tanto quanto os professores que, interpretando os versos da música “O Sumiço do Céu”, costumam dizer que passaram por uma transformação pessoal durante as oficinas. São como o pássaro preso na gaiola: “o alpiste é só esmola”.
— Muitos se sentem prisioneiros do sistema formal de ensino.
Diz Ricardo.
Ou melhor, canta.